sábado, 6 de agosto de 2016

Essa música, cantada por Mariana Abrunheiro, é bonita demais. Colei a letra abaixo porque algumas palavras são difíceis de entender no sotaque português, quando se ouve pela primeira vez.


Lá Em Baixo
Sérgio Godinho

Lá em baixo ainda anda gente 
apesar de ser tão noite 
há quem tema a madrugada 
e no escuro se afoite 
há quem durma tão cansado 
nem um beijo os estremece 
de manhã acordarão 
para o que não lhes apetece 
e há quem imite os lobos 
embora imitando gente 
há quem lute e ao lutar 
veja o mundo a andar para a frente

E tu Maria diz-me onde andas tu 
qual de nós faltou hoje ao rendez-vous 
qual de nós viu a noite 
até ser já quase de dia 
é tarde, Maria 
toda a gente passou horas 
em que andou desencontrado 
como à espera do comboio 
na paragem do autocarro

Lá em baixo ainda anda gente 
apesar de ser tão tarde 
há quem cresça no escuro 
e do dia se resguarde 
há quem corra sem ter braços 
para os braços que os aceitam 
e seus braços juntos crescem 
e entrelaçados se deitam 
e a manhã traz outros braços 
também juntos de outra forma 
de quem luta e ao lutar 
a si mesmo se transforma

E tu Maria diz-me onde andas tu 
qual de nós faltou hoje ao rendez-vous 
qual de nós viu a noite 
até ser já quase de dia 
é tarde, Maria 
toda a gente passou horas 
em que andou desencontrado 
como à espera do comboio 
na paragem do autocarro

Lá em baixo ainda há quem passe 
e um sonho que anda à solta 
vem bater à minha porta 
diz a senha da revolta 
vou plantá-lo e pô-lo ao sol 
até que se recomponha 
é um sonho que acordado 
vale bem quem ele sonha 
lá em baixo, até já disse 
que é que tem a ver comigo 
e no entanto sobressalto 
se me batem ao postigo

E tu Maria diz-me onde andas tu 
qual de nós faltou hoje ao rendez-vous 
qual de nós viu a noite 
até ser já quase de dia 
é tarde, Maria 
toda a gente passou horas 
em que andou desencontrado 
como à espera do comboio 
na paragem do autocarro

Lá em baixo ainda anda gente 
e uma cara desconhecida 
vai abrindo no escuro 
uma luz como uma ferida 
como a luz que corre atrás 
da corrida de um cometa 
e vejo vales e valados 
no sopé duma valeta 
lá em baixo ainda anda gente 
e uma cara conhecida 
vai ateando noite fora 
um incêndio na avenida

És tu Maria, eu sei, já sei, és tu
qual de nós faltou hoje ao rendez-vous
qual de nós viu a noite
até ser já quase de dia
é tarde, Maria
toda a gente passou horas
em que andou desencontrado
como à espera do comboio
na paragem do autocarro

És tu Maria, eu sei, já sei, és tu

domingo, 5 de julho de 2015

"Ninguém sente tão intimamente a paixão de Cristo como o que passou por tormentos semelhantes aos seus.
A Cruz, portanto, está sempre preparada e em todo lugar te espera.
Não poderás fugir, onde quer que te refugies, porque aonde quer que fores te levarás contigo e te encontrarás a ti.
Volta-te para cima ou para baixo, para fora ou para dentro, sempre acharás a cruz e sempre é necessário que tenhas paciência se queres possuir paz interior e merecer a coroa eterna.
Se de bom grado levares a cruz, ela te levará a ti e te conduzirá ao fim que desejas, onde já não terás que sofrer; mas não será neste mundo.
Se de má vontade a levares, aumentar-lhe-ás o peso e agravarás a tua carga, e, ainda assim, é forçoso que a suportes.
Se rejeitares uma cruz, outra encontrarás com certeza e talvez mais pesada.
Cuidas escapar àquilo de que se não eximiu nenhum mortal?
Que Santo houve no mundo que não teve cruzes e tribulações?
Nem Jesus Cristo,Senhor Nosso, passou, em toda a sua vida, uma só hora, sem as dores de sua Paixão. Era mister, disse disse ele, que Cristo sofresse e ressuscitasse dos mortos e assim entrasse em sua glória.
Como, pois, buscas outro caminho fora da estrada real da Santa Cruz?
Toda a vida de Cristo foi cruz e martírio e queres descanso e gozo?
Andas errado e muito errado, se buscas outra coisa que não sofrimentos; toda esta vida mortal é cheia de misérias e cercada de cruzes."
Imitação de Cristo

sábado, 4 de julho de 2015

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Fui ao Povoado B* cumprir um mandado, intimação de audiência a um reclamante sem advogado constituído. Na B* não funcionam celulares. As fazendas têm telefone, não sei por que meio. Mas um reclamante desempregado não tem... O único meio de falar com ele é dirigir 200km até o povoado, em estrada de terra, e ao chegar lá perguntar, à primeira pessoa que encontrar, onde mora fulano, que trabalhou na carvoaria em S*. Depois, dirigir os mesmos 200km para voltar.

Eu tinha ido à B* em janeiro, no meu segundo dia de trabalho aqui, acompanhado por um sujeito que conhecia a região e dirigindo o carro do tribunal. Uma vez na ida e outra na volta, no meio da areia da estrada, debaixo de chuva, perdi o controle do carro e deslizei pela pista.

Então hoje resolvi ir no meu carro, sobre o qual tenho melhor controle. Além disso, em janeiro a estrada estava em obras, pensei que as obras tinham avançado e muitos quilômetros tinham sido asfaltados. 

Fui sozinho, levando meu gps de trilha. O gps do carro não indica estrada nenhuma ali. O mapa que baixei em um site que compartilha, gratuitamente, mapas-base de gps indicava a estrada --e foi essencial para que eu achasse o começo dela.

Mas a estrada não tinha sido mapeada por completo e logo desapareceu do gps. Na foto, a linha azul é o percurso que percorri, e a linha tracejada é a estrada.

Minhas esperanças quanto ao asfalto foram vãs: em janeiro havia cinco quilômetros asfaltados. Em julho havia cinco quilômetros asfaltados. Vi muitas máquinas na beira da pista, mas não havia ninguém trabalhando.

Chegando ao povoado tive sorte: a primeira pessoa a quem perguntei sobre o reclamante era cunhado do sujeito. Encontrei-o em casa. Fato curioso: as galinhas não são criadas apenas no quintal, mas têm trânsito livre pela casa --havia várias andando pela cozinha. 

Vi duas crianças na casa. Indago sobre o futuro delas: sem boa educação; sem acesso a livros, filmes, músicas que possam ajudar a desenvolver o raciocínio; distantes de qualquer beleza que lhes possa cativar a alma (tudo ao redor são casas feias, chão de areia, mato seco e fazendas de soja e milho); não sei quando há missa por ali e, mesmo se houver com frequência, o padre deve ocupar seus sermões mais com política do que com formação moral. Tudo é tão limitador que parece impossível que desenvolvam suas potencialidades intelectuais e morais. Não sairá dali nenhum doutor e nenhum santo, porque o acaso do nascimento assim decidiu, e isso é terrível.

Não almocei. Esqueci de levar água e não procurei onde comprar. Queria voltar logo para a cidade.

Na estrada um caminhão bitrem não conseguiu subir uma ladeira, cem quilômetros antes de chegar a B., deu ré e ficou atravessado na pista. O motorista foi atrás de algum trator em alguma fazenda, e ninguém mais passava pela estrada.

O espaço entre o caminhão e o buraco em que a pista terminava era muito estreito. Para piorar, o desnível desse espaço livre era muito alto, e o terreno era de areia. Um carro tentou passar e ficou preso na areia, mas um caminhãozinho que estava no sentido oposto conseguiu guinchá-lo com cordas e ele passou. Um caminhão também passou, depois de ser empurrado por dezenas de pessoas, e depois de encostar no caminhão que estava bloqueando a estrada --foi muita sorte ninguém ter se machucado naquele momento.

Duas caminhonetes com tração 4x4 passaram. Eu tentei, mas meu carro é 4x2, fiquei arrependido de não ter ido com a caminhonete do tribunal. Desisti de tentar passar, pois era grande o risco de tombar no buraco na beira da estrada de um lado ou no caminhão parado do outro. Mas depois tentei de novo, e dessa vez o povo que estava lá parado me ajudou, empurraram meu carro para passar pela areia. Não tenho idéia de quantas horas eles me economizaram! Só sei que nos 100km que faltavam não fui ultrapassado por ninguém, embora não andasse muito rápido.

Acabei dando carona a um dos que lá estavam, um empregado rural que ia para a cidade de folga, numa van contratada pela fazenda.

Eu perguntei em que bairro ele morava e ele aproveitou para contar que se mudou da Açucena Velha para a Bacaba, porque depois que ele arrumou o emprego na fazenda sua mulher, com quem estava havia quatro anos, um dia simplesmente mandou que ele fosse embora de casa. Ele perguntou o motivo, ela respondeu que não havia motivo. Foi embora em um dia 26 e no dia 30 arrumou outra. Trabalha doze dias seguidos, folga quatro dias, recebe domingos dobrados e horas extras pelas tardes dos sábados. É motorista de trator, trabalha no plantio e na aplicação de agrotóxico, o trator tem gps preciso e se deixar de aplicar em algum ponto fica a marcação na tela. É empregado de uma empresa terceirizada que presta serviços para a fazenda (a colheita é feita por outra empresa terceirizada).

Soube mais ainda: o tio dele também foi expulso de casa pela mulher depois de arrumar emprego em fazenda nesse sistema de doze dias de trabalho por quatro de folga. "A gente faz qualquer coisa pra mulher não passar fome e ela faz isso", ele falou. Acrescentou que não se pode ser capacho de mulher, a ex-dele já está arrependida e telefonou tantas vezes que ele teve que trocar seu número. Mas um colega de trabalho, traído pela mulher com quem estava havia oito meses, prefere beber e arrumar briga com os outros a ter dignidade.

Eu pretendia chegar em casa às 15h, mas cheguei às 18h, sem almoçar, sem beber um copo d'água. Continuo esperando ansiosamente a nomeação em Campinas...

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Eu tinha que citar A. S., na Borracharia do Negão. O mandado indicava BR *, km 594, Setor Industrial. A saída da cidade fica no km 407, então o endereço necessariamente estava errado, pois o km 594 fica depois da cidade seguinte...
Consultando o processo, vi um recibo com o número do celular do reclamado e liguei para ele, na secretaria, na frente de todos.
"A. S., da Borracharia do Negão?"
"Isso."
"Estou tentando achar a borracharia, mas não consegui. Acho que o endereço que deram está errado, diz aqui km 594. Onde é a borracharia?"
"Com quem estou falando?"
"Aqui é W., oficial de justiça da Justiça do Trabalho, seu ex-funcionário M.* entrou com um processo contra você e eu tenho que ir aí intimar você."
Nesse momento toda gente na VT começou a rir, afirmando que ele não ia responder, ia desligar e não atenderia de novo.
Enquanto os colegas riam e falavam que eu devia dizer que estava com o pneu furado, respondi a eles que não sei mentir. Mas não consegui segurar o riso e imaginei que, depois do riso, o sujeito não me responderia mesmo. Propus aos colegas que algum deles ligasse para pedir o endereço.
Nada disso. O reclamado não apenas contou onde ficava a borracharia, como não esperou que eu fosse lá cumprir o mandado, mas foi até a VT receber a citação.
Eu não tinha por que mentir ao sujeito pois não tinha motivo para acreditar que ele mentiria para mim. Falei a verdade e deu certo. Confiei nele e ele me ajudou.
Se eu mentisse uma vez e precisasse dele de novo (processo não acaba com a citação inicial, provavelmente nos veremos de novo), ele não confiaria mais em mim.

domingo, 21 de junho de 2015

Fiz uma penhora numa tal de Carrocerias F*. Lá chegando procurei o proprietário, C* F*. O primeiro empregado a quem pergunto diz que ele esteve ali havia pouco. Vou ao fundo do terreno e pergunto a outros funcionários, que dizem que ele estava lá na frente. Volto para a frente e chegam dois sujeitos conversando, um se comportava como cliente, o outro como dono da empresa. Pergunto a este se ele é o C* F*. "Quem gostaria de falar com o C* F*?", indaga ele. "Sou oficial de justiça." E ele pede para eu aguardar um minutinho que ele vai ligar para C* F*. Enquanto isso eu ando pelo terreno vendo o que lá havia. Daí a pouco ele vem falar comigo: C* F* era ele mesmo. Mas logo diz que tinha vendido a empresa e era só empregado, e nada ali era dele. Sem problemas, o mandado é para penhorar os bens da empresa mesmo. Mas ele diz que aquela empresa não existia mais, embora nas paredes estivesse pintado em letras garrafais "Carrocerias F*". Resumindo: foi o juiz que me mandou lá fazer a penhora, ele devia explicar isso então para o juiz. Faço a penhora, ele assina como depositário e vou embora. E é essa a rotina...
Campo sem fim.
Balneário Cachoeira
Balneário Cachoeira
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Árvore solitária na plantação

sábado, 20 de junho de 2015

Dias atrás eu tive medo. Não sem motivo, mas mesmo existindo risco grave, continuo considerando absurdo eu sentir medo. Eu não devia ter medo. Nada detesto mais que o medo.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

"Não examines o remoto negligenciando o que está próximo."
Eurípides, Reso
Heitor a Reso, rei da Trácia:
"Há muito, muito tempo, devias ter vindo lutar com esta terra
e, fazendo tua parte, não permitir
que pelos argivos Tróia fosse destruída com lança inimiga.
Certamente não dirás que, não sendo chamado pelos amigos,
não vieste, nem ajudaste, nem para cá te voltaste.
[...]
Pisando na muita gratidão por essas coisas [que Heitor enumerou ter feito em favor dele],
adoentados os amigos, chegas por último em socorro."

Reso responde que teve que lutar contra os citas e enfrentou outras diversas dificuldades, e acrescenta:
"Vim tarde, mas, de todo modo, em boa hora."
Eurípides, Reso
"[...] Sim, há escassez
de bons, quando há sombra no oceano
e as ondas tempestam
a cidade."
Eurípides, Reso
O mundo se divide entre as pessoas que escolhem estar presentes quando precisamos e as que escolhem depois dizer "eu não soube". Em ambos os casos há sim escolha: quem escolhe estar presente, estará lá. Quem opta por receber sem dar, só aparecerá quando quiser satisfazer uma necessidade (em sentido amplo: psicológica, afetiva, material, física).
O mundo também se divide entre as pessoas que, diante de uma fraqueza alheia, prestam socorro, e aquelas que, na mesma situação, espoliam.
Mais ainda: há quem, diante da dor ou do risco que sofre o próximo, sente essa dor e esse risco como próprios, e aqueles que nada sentem e oferecem monossílabos para satisfazer a obrigação social.

Esse artigo é bom.
Se um escravo fugia, certamente seu senhor se sentia injustiçado e clamava aos céus contra o negro ingrato que, sendo tão bem tratado, tão bem alimentado, tendo tanto conforto e excelente alimentação, se furtava ao patrimônio de seu piedoso mestre.
É assim o mundo. Sobrevalorizamos cada bem que fazemos e cada mal que recebemos. E minimizamos cada bem que nos fazem e cada mal que fazemos.

domingo, 17 de maio de 2015

O amor à beleza, como o amor à justiça, é algo que se aprende e se exercita. O prédio da igreja, as imagens, a liturgia, a música, também fazem parte desse aprendizado, assim como tudo que é belo na criação. Aprender a amar a beleza é aprender a amar a Deus, que é a Beleza e ordenou as coisas para que sejam belas. Mas se nos acostumamos ao feio, ao desordenado, a nossa própria alma também se desordena e passa a amar errado e a rejeitar o que deveria ser amado. Se nos acostumamos ao feio, não vemos sentido no belo, que passa a ser mero desperdício e ostentação; se nos acostumamos ao injusto, os justos se tornam tolos por padecerem enquanto os injustos prosperam, e o heroísmo se transforma em sacrifício vão; se nos acostumamos ao vulgar, o trabalho feito com esmero passa a ser um desperdício de tempo; se nos acostumamos ao que é desordenado, a virtude se torna desperdício de vida e juventude. Começamos por rejeitar a beleza (estética, moral, musical, literária, litúrgica) e terminamos como os porcos que, tendo no pescoço pérolas da beleza deste mundo, ignoram e chafurdam na lama.

sábado, 9 de maio de 2015


Essa é a casa de um reclamante a quem fui intimar, em um povoado. A foto é de dentro de casa, do lado direito está a sala, que tem duas cadeiras. Do lado esquerdo a cozinha, com um fogão. A porta do quarto é um lençol, o telhado é de palha, o chão de terra batida. Todas as outras casas no povoado são iguais, e em muitos outros povoados as casas são assim. Trabalhava em uma carvoaria, não recebeu as rescisórias nem lhe foi devolvida a CTPS.

Foram 95km em asfalto esburacado, 157km em estrada de terra, sendo 38km nessa estrada da foto. A foto é péssima porque não levei minha câmera e meu celular principal foi furtado há quase um mês, fotografei com o celular que uso para trabalhar.