domingo, 4 de abril de 2010

Da briga em que me envolvi no trem

Era domingo, feriado de Nossa Senhora, noite. Na estação X, entrei no trem com destino a Z. Dirigia-me, como habitualmente, ao último vagão, que é sempre o mais vazio, mas notando que no penúltimo não havia ninguém, resolvi ficar por lá mesmo. Enquanto ainda me sentava, entraram no trem três pessoas: um casal, sendo que a mulher carregava uma criança no colo, e outra mulher, uma mulata magra de cabelos cacheados. Eu estava numa ponta do vagão e eles se sentaram na outra, o casal no lado esquerdo e a mulata no direito. Abri o livro que carregava, Desestatização do Dinheiro, de Hayek, e pretendia seguir a leitura quando notei que se iniciava uma confusão e, imaginando que teria uma história para contar depois, passei a observar cuidadosamente. A mulher que carregava a criança, falando alto com seu parceiro, dizia: "Você pensa que eu sou igual as suas namoradas em que você batia e depois elas voltavam com você?". O homem segurou o braço dela e respondeu: "Em quem eu bati? Eu não bati em ninguém". A mulher então começou a gritar: "Me solta, me solta, me solta!". Embora o homem já a houvesse soltado logo de início, e seus braços estivessem distantes dela, ela continuava a gritar: "Me solta, me solta, me solta!". Em seguida o sujeito quis segurar o bebê, seu filho, mas a mulher se recusou a entregá-lo. Depois, enquanto a gritaria continuava e eu e a mulata observávamos, ela se levantou para sair do vagão, mas o homem a segurou e a colocou de novo no banco.

De repente, e sem nenhuma causa extraordinária que motivasse a mudança de nível da briga, o homem avançou, com a mão direita, sobre a cara da mulher, e a mulata, que até então apenas assistia à cena, se lançou sobre o sujeito para separá-los. Confesso que, à princípio, não sabia se devia ajudar ou não. Desconhecia os motivos da briga, os hábitos do casal (talvez fossem dados a fazer essas cenas!) e não podia imaginar como se daria o desenrolar da história. Se o sujeito quisesse mesmo bater na mulher, eu, com o meu tamanho, não poderia fazer nada para impedir --levaria uns murros à toa. E, também, convenhamos: pessoas que brigam no trem merecem-se umas às outras e ao seu destino, e não merecem que arrisquemos nossa integridade física para protegê-las -- e se não podem viver sem fazer gritarias, ao menos façam-nas em casa, não em público! Mas como a mulata tentava separá-los, eu não podia deixar que ela o fizesse sozinha, pois era uma mulher que podia apanhar sem ter brigado.

Não via direito o que acontecia, pois estava longe e sem óculos. À princípio imaginei que o homem estivesse enforcando sua mulher, mas, enquanto me aproximava, pude ver o pescoço dela livre e esticado, embora não visse seu rosto, o que me fez concluir que ele a havia calado, levantando seu queixo e segurando a face de modo que sua mão verticalmente sobre a boca formasse uma concha. A memória, nessas situações, não registra cada detalhe com precisão, de modo que não lembro se quando cheguei o sujeito já fora separado da mulher ou se eu de algum modo contribuí para isso. Lembro-me apenas do momento seguinte: coloquei a mão direita no peito do sujeito, enquando com a esquerda segurava meu Hayek e meu agasalho, e dizia a ele que se acalmasse. O sujeito era gordo e usava cavanhaque -- não consigo descrever seu aspecto de outro modo senão dizendo que ele me lembrava do Rei dos Rinocerontes, personagem briguento de um desenho animado em que havia um Reino dos Elefantes e um Reino dos Rinocerontes em constante guerra. Enquanto isso a mulher, carregando o bebê, saiu do vagão, deixando cair o cobertor da criança. Apanhei o cobertor e a mulata o tirou da minha mão, enquanto tentava acalmar o homem --aí eu soube que ela era irmã da outra.

O sujeito se sentou, perguntando à mulata por que a mulher estava fazendo aquilo e dizendo que ela fosse ao outro vagão conversar com a irmã. A mulata respondeu que ele estava bêbado e disse para ele se acalmar etc. Eu também disse a ele que esperasse para resolver tudo quando estivesse mais calmo, que não chegaria a lugar algum naquele estado e outras coisas do gênero. Uma vez o sujeito tentou se levantar para ir atrás da mulher, mas o seguramos. Uma segunda vez, após aparentar ter-se acalmado, ele correu, a mulata o segurou pela camisa, rasgando-a e quebrando uma correntinha que ouvi bater no chão (concluí que era uma corrente por causa do som da quebra e do choque com o assoalho; cheguei a olhar para o chão e ver uma mancha, mas, estando sem óculos, não distinguia direito o que era a corrente e o que era o lixo habitualmente depositado no chão desses trens), mas ele conseguiu ir, sem que eu tentasse segurá-lo desta vez, e tendo a mulata corrido atrás.

Nesse momento entravam no vagão várias outras pessoas, entre elas um homem que me perguntou o que tinha acontecido e, tendo ouvido minha narração, respondeu sorrindo: "Isso aí à noite eles resolvem".

Pois bem, logo em seguida aglomeram-se umas pessoas na porta do próximo vagão, notei que uma criança foi até lá ver o que se passava e voltou correndo, mas não pude ouvir o que ela contou aos adultos com que viajava. Embora não visse o que de fato acontecia, imaginei que a mesma confusão continuasse por lá. Cinqüenta minutos depois, chegando à estação Y, desci do trem, e pude ver os três descerem juntos do outro vagão: desta vez o homem trazia a criança no colo e não havia nenhum sinal de briga. Passei por eles andando rapidamente, para não correr o risco de me intrometer novamente, mas percebi que a mulata me viu e disse algo que envolvia as palavras "a correntinha dele". Na hora não prestei atenção a isso, porém depois me indaguei por que ela o disse quando me viu. Será que, resolvida a confusão entre eles, tendo o homem notado a camisa rasgada e a corrente faltante e reclamado com a cunhada, ela teria se esquecido de que fora ela quem fizera aqueles estragos enquanto tentava segurá-lo? As condições não eram propícias para boa percepção e formação de memória e, talvez, não se lembrando de tudo que se passara, ela tenha preenchido com a imaginação os espaços faltantes --qualquer pessoa que tenha estudado psicologia do testemunho sabe que depoimentos se dão muitas vezes assim. Sem precisar explicar as condições objetivas e subjetivas modificadoras da percepção ou as condições modificadoras da memória, posso dar um exemplo ocorrido aqui em casa, anos atrás, que pude observar tranqüilamente, e que ilustra bem essa situação: cheguei em casa mais cedo do que o habitual e meu irmão, com raiva porque não poderia continuar a fazer na sala o que então fazia, atirou no chão um cadeado que tinha em mãos e saiu; eu não toquei no cadeado, pois quis saber se ele depois se lembraria do que fizera; à noite, quando devia trancar a janela com aquele cadeado, meu irmão o procurou e não o encontrou, até que eu apontasse onde ele o havia atirado e o lembrasse disso; ele, então, ao dizer a minha mãe que já o achara, disse, convicto, que eu o havia escondido.

Pois bem, terminei o domingo (e o Hayek) com algumas questões na cabeça: que memória dos fatos terão a mulata e o casal briguento? Será que a mulher lembra-se do "Me solta, me solta, me solta" sem que fosse segurada? A cunhada lembra-se de ter agarrado o cunhado pela camisa e pela corrente, rasgando aquela e quebrando esta, ou pensa que fui eu que o fiz, e por isso falou de "correntinha" quando me viu? Ou será que ela nem falou essa palavra, e eu entendi assim quando organizava os fatos na cabeça? E o homem, continua convencido de que jamais bateu em namorada alguma? Vamos ver se os encontro no trem outro dia para perguntar --mas é perigoso que dessa vez eu não escape de apanhar, até porque, se eu falar de correntinha e minha interpretação dos fatos estiver correta, vai parecer que fui eu mesmo o responsável pelo seu sumiço.