quinta-feira, 4 de abril de 2013

A moça (M) era um ano, nove meses e um dia mais nova que eu. O rapaz (R) que a assediou nasceu poucos dias depois de mim.

Trabalhavam em uma companhia aérea e tinham a mesma função. Ambos tinham relacionamentos amorosos com outras pessoas. Eram de turnos diversos e não se conheciam até que R fosse transferido para o turno de M. De início ele lhe fazia elogios, que não eram correspondidos. Os elogios cresceram em sentido e mudaram de natureza: diante de outros funcionários R passou a chamá-la de gostosa e de tesão, e também passou a contar que tinha sonhos eróticos com ela. Na presença do líder do setor, R disse à M que desejava vê-la dançando nua para ele na sala de trabalho. Em outra ocasião, R se trancou com M na sala, mas outra funcionária, que também tinha a chave, abriu a porta e encontrou M acuada contra a parede --R, sem dizer nada, saiu do local.

O líder nada fazia. Depois de algumas reclamações de M, a supervisora finalmente a transferiu para outro setor. R continuou a trabalhar na empresa.

Na maioria dos casos em que se alega assédio sexual há trocas de piadinhas entre as partes (umas vezes a mulher inicia a troca de piadas, outras vezes o homem) e, quando a trabalhadora sai da empresa, pede uma indenização por danos morais. Mas também há muitos casos como esse, em que o assédio é indiscutível (por mais incrível que pareça, soube de um em que a vítima era um homem: jovem, noivo, cuja chefe velhota o perseguia, enviava emails e ameaçava fazer um escândalo no dia do seu casamento).

A este caso outros elementos se acrescentaram, que o tornaram singular: meses depois R foi promovido a chefe do setor em que M trabalhava. Fala-se muito do que fazem as mulheres rejeitadas, Eurípides até nos deu uma Medéia que mata os filhos para provocar dor no ex-marido. Mas o noticiário policial demonstra que em geral são os homens que fazem as piores coisas. R não buscou um lugar nas páginas de crimes, mas não pôde deixar de usar do seu diminuto poder de líder de meia dúzia de funcionários para se vingar da rejeição: passou a assediar M moralmente. Cessado estava o interesse sexual, restava apenas a raiva. 

A autonomia que M tinha em suas funções foi retirada, e nada mais do que ela fazia estava certo. Os documentos desapareciam de sua mesa, e aos superiores lhe era atribuída a responsabilidade pelo mal encaminhamento do serviço. M pedia aos supervisores que a transferissem de setor, mas lhe respondiam que a empresa estava em reestruturação e não era permitida a movimentação de pessoal naqueles meses. M desenvolveu problemas de pressão, taquicardia, ficou deprimida, procurou um psiquiatra, iniciou o tratamento sem se afastar do trabalho, pois era mãe solteira e dependia do salário para cuidar de seus dois filhos.

Um atestado médico de M se extraviou, e R aproveitou a ocasião para gritar que M não estava doente e que ia ser demitida. M tinha cópia do atestado na bolsa, levou-a ao RH, que abonou imediatamente a falta. Procurou também o setor médico, foi constatada sua pressão alta, chamaram um táxi para levá-la ao hospital mas, enquanto saía, R ao encontrá-la não perdeu a ocasião de mais uma vez agredi-la verbalmente. M sofreu afastamento médico do trabalho, voltou a trabalhar e meses depois foi demitida.

A companhia aérea trouxe um advogado de Brasília. Essa companhia, sempre que tem um problema insolúvel, traz um advogado de Brasília. Na última vez trouxe um que escreveu dissertação de mestrado sobre práticas anti-sindicais --na ocasião me passou pela cabeça que ele havia estudado para cometê-las. Desta vez não sei qual era a especialização do advogado. 

A alegação da empresa era de que R e M jamais, nunca, em nenhuma ocasião trabalharam no mesmo horário. R trabalharia sempre no período noturno, M no vespertino. Duas testemunhas trazidas pela empresa inicialmente confirmaram essa versão, e em seguida contaram que durante alguns meses o turno da tarde não tinha líder e R assumiu a liderança de ambos os turnos, permanecendo os dois períodos no aeroporto, inclusive durante o horário de trabalho de M. Nenhuma das testemunhas da reclamada confirmou os assédios sexual e moral, mas uma delas disse já ter visto M chorando no local de trabalho. M trouxe apenas uma testemunha, que produziu prova somente quanto ao período do assédio sexual, não havendo portanto prova quanto ao assédio moral do segundo período.

Duas testemunhas da empresa foram ouvidas, mas ela havia trazido três: surpreendeu (a mim causou, na verdade, riso) quando o advogado da empresa disse que queria ouvir R como testemunha. Contraditada a testemunha por interesse no resultado do processo, testemunha dispensada. Mas, por alguns instantes, enquanto era qualificado, R sentou-se na cadeira para depor, foi visto por todas as pessoas que estavam na sala de audiência (ninguém havia pedido segredo de justiça, a sala estava lotada), teve os seus instantes de constrangimento. Eu estava com raiva do advogado da empresa: a situação era clara, mas ele insistia em estar do lado da injustiça. Depois, pensando melhor, creio que ele tenha levado R até lá justamente para que todos vissem quem ele era e para que se sentisse exposto.

Detalhe: na qualificação R disse ser casado --eu me pergunto o que aconteceria se sua esposa lesse as cinco páginas da ata de audiência. Talvez não acontecesse nada, pois as mulheres antes de iniciar o relacionamento têm expectativas detalhadas e não admitem a frustração, mas depois do relacionamento em curso elas costumam tolerar de tudo (toleram no parceiro mil vezes mais do que não tolerariam em um pretendente), suportam tudo para manter a relação, justificam tudo e não percebem nada. 

O advogado das práticas anti-sindicais não recorreu da sentença, vamos esperar que esse também oriente a empresa a não recorrer em uma causa perdida.

4 comentários:

  1. Sempre vai haver essas situações. =/

    ResponderExcluir
  2. Rapaz, geralmente fico mto feliz qndo sai algum texto novo seu pra gente ler. E fico mais feliz ainda qndo, após lê-lo, confirmo q minha felicidade inicial não foi embalde! Achei genial sobretudo as duas linhas introdutórias. Por favor, keep writing! Abç, pv

    ResponderExcluir
  3. Nem é mais vacina, mas "efeito memória" que tenho contra situações distantes dessa, mas tidas por não muito diferentes.

    O poder, masculino ou feminino, em casos assim, sempre prevalece nas respectivas instituições.

    Até chegar na Justiça, que, prontamente, desconfia de advogados vindos de Brasília para um caso, aparentemente, simples de se resolver.

    Liminares dos brilhantes advogados começam a ser sistematicamente negadas, e a parte fraca - homem ou mulher - acaba se fortalecendo quando fora dos ambientes em que tudo lhes era desfavorável.

    O machismo, que ataca, indiscriminadamente, quaisquer dos sexos, valendo-se de relações de poder, na hora da escolha da vítima, cede.

    Bem depois de prejuízos incalculáveis terem sido causados.

    Surpreende-me, com a demora, M não ter dado um tiro na testa de H...

    É o conceito de desespero: pessoas sem expectativas, presentes ou futuras, são as que nada veem a perder.

    Livrar-se de quaisquer problemas como se uma mosca fossem, então, parece-lhes custar apenas o esforço da chinelada.

    ResponderExcluir
  4. Yuri, essas coisas despertam em mim a vontade de estudar...

    ResponderExcluir