sexta-feira, 17 de maio de 2013


A imagem retrata o Barão de Münchausen, personagem de histórias infantis, usando um meio bem simples para escapar do pântano em que afundava: com ambas as mãos ele puxa os próprios cabelos para o alto, arrancando a si mesmo e ao seu cavalo da areia movediça.

As Aventuras do Barão de Münchausen passavam repetidamente na tv quando eu era mais novo, mas nunca assisti a esse filme. Só conheci esse episódio nas aulas de sociologia: era usado como uma metáfora da neutralidade axiológica. O pesquisador, crente na sua objetividade, pensaria criar uma muralha intransponível entre sua pesquisa e os preconceitos e crenças que lhe foram incutidos desde o berço e nunca deixaram de rodeá-lo. O pesquisador alcançaria sozinho a objetividade, seus resultados teriam a pureza da ciência --seria como o Barão de Münchausen resgatando a si mesmo da areia movediça. 

Mas não é sobre a pretensa neutralidade axiológica que quero tratar. A metáfora é boa, por isso eu a expliquei tão longamente. Ela vai ser útil para falarmos de outra ilusão: aquela segundo a qual dentro de nós estaria a felicidade e assim seríamos, de certo modo, autossuficientes.

As palavras não têm o condão de mudar a realidade, e por isso essa crença não resiste a um final de domingo, horário universal da depressão. Mas as segundas-feiras chegam e as pessoas sobrevivem (embora as estatísticas digam que os domingos e as festas de final de ano tem maiores índices de suicídio, a maioria das pessoas sobrevive). E porque sobrevivem, continuam acreditando que a idéia mágica corresponde à realidade.

A felicidade alcançamos ao atingir o fim para o qual Deus nos criou. O fim último é Ele mesmo: Ele nos criou para que O contemplemos, e essa será a felicidade final. Mas, antes disso, Ele nos deu também fins intermediários, que são como escadas para que O alcancemos. A nossa felicidade cotidiana é realizar a tarefa que Ele nos deu usando os meios com que Ele nos agraciou.

Antes de me tornar católico, lendo as histórias de um psiquiatra judeu preso em um campo de concentração nazista, eu aprendi essa lição: o sentido da vida está fora de nós. E é isso também o que demonstram as vidas dos santos: servindo a Deus na pessoa do próximo todos os dias, esquecendo-se de si mesmo, eles alcançam a contemplação divina. Esquecendo-se de si mesmos e doando-se plenamente, abandonando a própria vontade ("Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segunda a tua palavra."), negando ao corpo a satisfação, submetendo o amor-próprio à humildade de sofrer até mesmo a injustiça sem retribuir com o mal e sem reclamar, corrigindo enfim dia-a-dia a própria natureza.

A nossa natureza foi desviada e precisa ser ordenada, e o modo de ordená-la é buscando a graça divina e adquirindo o hábito de fazer o bem. O justo cai sete vezes ao dia, mas se ergue porque se despoja de si mesmo e fica mais leve. A nossa vontade, na maioria das vezes, é errar ainda mais incisivamente quando nos percebemos errados: buscando justificativas que nos exculpem, fazendo malabarismos mentais para chamar o mal de bem,  rejeitando o castigo que vem nos corrigir. Ainda que nós, que não somos justos, não nos lembremos de ter feito o mal, em um único dia rejeitamos incontáveis possibilidades de fazer o bem: com uma resposta educada, com uma gentileza. E deixar de fazer o bem é por si mesmo um mal contra o próximo, que o esperava de nós; contra Deus, pois se Ele nos deu condições e nos colocou no momento e no local em que podíamos agir, Ele queria que agíssemos; e contra nós mesmos, que perdemos a oportunidade de melhorar e de nos aproximar mais de Deus.

Em nós mesmos nós não encontraremos nada. Quando assumimos para nós as tristezas daqueles que nos cercam, quando aliviamos a sua carga, a felicidade dele se converte em nossa felicidade. Quando estamos comprometidos com os outros, agimos melhor e nos tornamos melhores porque sabemos que os outros esperam algo de nós, e não queremos frustrá-los. Quando deixamos que os outros confiem em nós, também adquirimos aqueles amigos em quem confiaremos na necessidade; deixaremos de ser um só isolado, exposto às vicissitudes da vida, e passaremos a ter várias pernas para nos sustentar e várias mãos para trabalhar pelo nosso bem. 

O sentido da vida e a felicidade não estão dentro de nós. Esquecer o nosso eu faz com que sejamos maiores que nós mesmos. Torna real a comunhão com o próximo, faz com que sejamos um, como na oração de Cristo. E assim, ao final, todos retornaremos a Deus.

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