terça-feira, 7 de maio de 2013

"Não servirei", disse o anjo, preferindo reinar no inferno a estar no lugar que lhe fora designado no Céu. O mesmo grito é todos os dias repetido entre os homens, pois a rebelião é uma só: contra a ordem da criação. 

Aquele que se rebelou não era o menor dos anjos, mas sim um dos primeiros do exército celeste. Sua revolta é aparentemente sem sentido: sabendo-se criado, devia saber que o Criador o venceria; tendo um lugar de honra, não devia estar descontente com sua condição. Mas lhe era insuportável saber que foi criado, saber que algum poder lhe era superior. Foi retirado do nada, do não-ser, para eternamente servir ou se condenar eternamente, sem que sua vontade o tivesse levado a esse dilema. Tinha a liberdade de escolher, mas era obrigado a escolher. Estava para sempre submetido a normas que lhe eram impostas desde o exterior, estava até mesmo preso à própria existência. Viu que era um ser racional e se acreditou capaz de também ordenar o mundo, organizar a criação, dando a si mesmo um lugar maior. Imaginou-se igual a Deus pela razão, inferior a Ele apenas no poder, e julgou ser isso uma injustiça. 

A mesma crença e juízo ressoa no coração do homem: a ordem do ser é por ele rejeitada como fruto do arbítrio alheio. Não admite sua sujeição a leis externas, quer ser ele mesmo a fonte das normas que regem sua vida e a sociedade. Busca decidir por si mesmo o que é bom e o que é mau, definir o que é justo e o que é injusto, ser o seu próprio critério de medida. Deseja moldar a realidade de acordo com a sua vontade. 

A ordem que Deus criou tem ela mesma a punição pela sua violação: a desordem. Ao abandonar o único caminho para ele criado, o homem se perde em uma infinidade de erros e se desespera. Ao colocar a própria vontade no centro da criação e erigir-se legislador do cosmos, ele se divide em uma profusão de partidos, cada um destes defendendo interesses particulares, e então o homem se faz inimigo dos seus irmãos. Mesmo conhecendo as consequências dos seus atos, ele tenta romper a causalidade e separar os atos de seus efeitos; realiza a sua vontade deformada e revolta-se contra os resultados com o mesmo argumento de que a própria relação de causalidade é uma imposição alheia e portanto injusta 

O ato injusto traz em si seu próprio castigo: deforma a natureza do agente e o rebaixa na ordem do ser. De livre, passa a escravo de seu próprio mal. Aquele que se queria igual a Deus, torna-se semelhante aos irracionais e sua liberdade se degenera em bestialidade. Uma vez desviado, o homem se afunda em seus vícios e não tem forças para sozinho reordenar sua alma. Mas ainda lhe resta a possibilidade da redenção, se conseguir reconhecer que a ordem da criação, a lei natural, não é fruto do arbítrio divino, mas de um amor e uma justiça que ultrapassam seu entendimento, que não consegue abarcar com um olhar, cujos fins agora lhe são ocultos, mas em que pode confiar.

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