domingo, 4 de agosto de 2013

"É que o castigo nos deixa mais prudentes e justos, atuando a justiça como a medicina da maldade [...] Nas piores condições, portanto, vive quem é injusto e não se libertou de sua injustiça."
Platão

O maior dos males é ter a alma injusta. Platão ensina, em Górgias, que pior do que sofrer a injustiça é cometê-la, pois quem a comete tem a alma desordenada. E ainda pior é cometer a injustiça e permanecer sem o devido castigo, pois o castigo é o remédio para a alma injusta, que visa a curá-la e a libertá-la da injustiça.

Uma sociedade que tolera a injustiça, e que fornece uma profusão de meios para que o injusto fuja do castigo, está fadada a lançar seus membros no abismo. "Caixinhas" para as autoridades fiscalizadoras, chicanas jurídicas, recursos sem número, "embargos auriculares" nos tribunais superiores... não faltam aos maus os instrumentos para que fiquem piores.

A sociedade não existe para termos a quem explorar, mas para que tenhamos ajuda mútua na ordenação da nossa alma. As instituições, que deveriam ajudar o nosso aperfeiçoamento, quando corrompidas sustentam os maus em sua maldade (furtando-os do castigo), e fazem com que os bons descreiam do bem e sigam o exemplo dos maus. 

Toda essa meditação a propósito de dois episódios da semana passada, um do trânsito e outro processual.

Vindo de Curitiba, eu voltava para São Paulo pela Régis na tarde do último domingo, quando o trânsito parou completamente na Serra do Cafezal. A cada vinte minutos andávamos uns trezentos metros... Pois bem: em uma dessas ocasiões em que nos movíamos o carro que estava à minha frente engatou a ré e começou a se aproximar de mim. Buzinei uma vez, mas ele continuou. Buzinei outra, mas ele continuou. Quando ele estava muito próximo de encostar em mim, não houve escolha senão segurar a buzina para ver se o motorista percebia o que estava fazendo.

Quando fazemos uma burrada, é natural que a gente queira esconder o rosto para não ver o olhar de reprovação alheio. Nós mesmos reprovamos nossa conduta e temos vergonha do que fizemos. Mas se a alma já está doente, tomada pela injustiça, esse auto-julgamento não funciona e a pessoa não só não tem vergonha do que fez como tem até mesmo orgulho e sente-se no direito de errar sem que do exterior lhe venha qualquer forma de reprovação.

Assim que pude, mudei de faixa para sair de trás daquele motorista, mas para meu espanto, enquanto eu passava, ele ligou as setas e abaixou o vidro para brigar comigo. Passei direto, mas ao contar essa história para outras pessoas soube que ela não é exceção, mas regra no trânsito: que os motoristas errados geralmente querem brigar. 

O segundo episódio é um processo que passou pelas minhas mãos. A reclamante, médica contratada por um município sob o regime da CLT, pedia rescisão indireta do contrato de trabalho alegando as más condições de trabalho. Dizia ser a única plantonista aos domingos na clínica médica do hospital municipal; acrescentava que em razão da falta de médicos precisava também assumir plantões às segundas-feiras e em outros dias da semana.

Pois bem, a prova produzida em audiência foi em sentido diverso: ela nunca emendou o plantão de 24h do domingo com um plantão na segunda-feira. Os plantões durante a semana eram facultativos (a testemunha que ela trouxe disse que consultava os médicos e quem aceitasse ficaria com o plantão e seria pago por isso, não havendo obrigatoriedade de assumir o plantão para o qual não fôra contratado).

Mas a parte mais interessante da história, confirmada tanto pela testemunha da reclamante quanto pela testemunha trazida pelo município reclamado, era que somente em alguns períodos a reclamante foi a única contratada para o plantão do domingo, havendo na maior parte do tempo dois ou três médicos contratados. Ambas as depoentes ainda contaram que havia "esquema" entre os médicos para que apenas um trabalhasse e o(s) outro(s), após o registro do ponto, fosse(m) embora. Os médicos dividiam entre si os horários, de modo que ficasse apenas um no hospital, mas, de acordo com a testemunha da autora, "eles nem sempre cumpriam o que combinavam com o colega", de modo que o colega que lá ficava poderia permanecer sozinho sem que o outro viesse rendê-lo na hora acertada...

E como isso se relaciona a tudo que vai acima? Simples: ela realmente acreditava injustas as condições de trabalho ali, porque cria ter direito a mais colegas com quem pudesse dividir as horas de plantão, e assim poder trabalhar apenas uma parcela das horas contratadas ou em outro dia que lhe fosse mais conveniente. O mau hábito está de tal modo enraizado na alma que, ter cumprir o livremente contratado, ter de cumprir a regra, é como sofrer uma violência desmedida... A alma, de tão corrompida, esquece o que é certo e o que é errado.

E infelizmente essa é a realidade de muitos hospitais, basta perguntar a quem trabalha neles. Os dentistas não gostam dos médicos, e dirão que "eles fazem tudo o que querem". A má ação habitual distorce a visão que a pessoa tem da realidade, e ela passa até mesmo a acreditar que o mundo deve se ordenar em função das necessidades e dos desejos dela, e tudo que a contrariar será uma ofensa intolerável.

Um comentário:

  1. Texto que convida cada um a pensar se não está sendo aquele motorista ou essa médica..

    Um dia traído pelas instituições, o desejo de trai-las parece um instinto irrefreável..

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