quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Em um leito de UTI, depois de vários enfartes, à beira da morte, indagado se havia algo de que se arrependesse, o doente me respondeu que nada havia feito de mal na vida, e se vivesse de novo faria tudo da mesma forma. Disse ainda que, se tivesse feito algo errado, havia sido por inocência, ignorância ou necessidade. Ele não morreu, mas teve depois um AVC que lhe tirou o uso da razão, ficando impedido de dar nova resposta àquela pergunta. O rol de maldades (e crimes) que com saúde praticara era bastante extenso.

Em outra ocasião perguntei a uma doente, neopentecostal adepta da teologia da prosperidade, se estava arrependida de antes ter dito que um Deus que deixasse o fiel de cama, sofrendo, era um Deus inútil, e que ela nada queria com tal Deus. Na ocasião já fazia um ano que ela padecia com uma hérnia que a incapacitava para as mais comezinhas tarefas, e recentemente tivera também um aneurisma e estava de cama, sem falar, sem mexer o lado direito do corpo, comunicando-se apenas por movimentos dificultosos com a cabeça. Com esforço ela exprimiu a resposta: não, não se arrependia de dizer isso.

As duas histórias ilustram o seguinte: nós não somos os melhores juízes de nós mesmos. Nosso julgamento é viciado, pois ninguém quer se ver como um monstro. Interpretando favoravelmente nossos atos, conseguimos conciliar a ciência que temos de nossas más ações com o desejo de não sermos monstros.

Surgem assim incontáveis justificativas para diminuir a própria culpa. Mais que isso: também gostamos de ser reconhecidos como vítimas, e facilmente atribuímos ao outro a responsabilidade pelas nossas misérias. Por fim, a própria memória se encarrega de esquecer-se das coisas que nos incriminam. Aos nossos próprios olhos, tornamo-nos quase santos, modelos do homem perfeito.

Conhecida está a doença, e nada do que foi dito deve ser novidade para o leitor. O problema é combatê-la. E tratando-se de um combate tão desigual (nós, pequenininhos, contra nossa própria natureza), no qual a derrota seria tão catastrófica (nos tornaríamos monstros que acreditam ser santos!), precisamos viver num estado de alerta permanente, lutando em todas as frentes.

Se é o juízo favorável sobre nossas ações que nos perverte e nos faz julgar desfavoravelmente o próximo, então o melhor é inverter a equação: reconhecer de imediato nossas culpas, assim que elas se apresentem diante de nossos olhos (e acrescento: procurar rapidamente o sacramento da confissão para expiá-las), e tomar as ações e palavras do outro na sua acepção mais favorável.

 O conselho de interpretar os outros favoravelmente pode causar desconforto: acabaríamos por nos transformar em bobos, seriamos enganados todo o tempo. Não se trata de ser bobo, até porque o próprio Deus mandou que sejamos astutos como as serpentes. Pode-se perfeitamente ouvir a mentira sem alterar o humor, mas também sem se iludir, sem se esquecer das possibilidades de julgamento desfavorável, deixando esse conhecimento guardado para ser usado quando as coisas atingirem a proporção do absurdo.

Esclareço: se sabemos o que realmente está acontecendo, somos nós que temos o controle dos fatos, não o mentiroso que tenta nos ludibriar. E se a mentira não tiver relevância, não há motivo para que alteremos aquela que seria a nossa natural resolução. Deixemos que os outros acreditem que nos enganam ou manipulam, isso não faz diferença quando temos o controle sobre nossas decisões. Nós não perseguimos todas as moscas que passam zunindo, nem abrimos os bueiros para caçar as baratas que lá se escondem. Do mesmo modo, devemos ignorar os pequenos males com que eventualmente sejamos afligidos.

Destaco que há três grandes vantagens nesse método: primeiro, teremos menos conflitos com o próximo, estando ele certo ou errado; reduzindo os conflitos com o próximo, maior a possibilidade de que ele se arrependa do mal que fez e passe a agir de modo diverso, e ganharemos assim um amigo; terceiro, se o juízo favorável que adotamos posteriormente se mostrar verdadeiro, não teremos faltado à justiça porque interpretamos e agimos favoravelmente.

Quanto à memória, que esta não nos falte. Devemos conhecer nossa maneira de reagir às diferentes situações, e principalmente saber por que assim agimos. Cultivar a memória (e revolvê-la, trazendo à tona aquilo que nos desagrada) é essencial para que possamos agir livremente, sem o condicionamento dos sucessos ou insucessos do passado, mas podendo analisar e escolher o melhor.

Mas investigar a memória envolve um risco: o de nos justificarmos com o passado. Negaríamos o nosso livre-arbítrio e diríamos que nossas ações são resultado exclusivo da educação que recebemos, dos traumas que sofremos, dos estímulos que nos foram dados. Não pretendo colocar a liberdade em um pedestal: realmente sofremos as limitações das nossas vidas, fomos moldados pelo passado. Mas o homem é mais que uma massinha de modelar nas mãos do incerto destino. O homem pode avaliar seu destino e se libertar de seu jugo, isto é, pode escolher não repetir o mal (porque fazer o mal é absurdo! o mal não merece ser reproduzido!). O homem pode, com uma decisão, pôr fim a uma longa série de maus eventos, e então iniciar uma nova série de ações virtuosas.

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