sábado, 9 de novembro de 2013

(Resolvi deixar este post mais uns dias no alto. Há embaixo um que lhe foi posterior.)

História passada há quase três anos. A reclamante e a reclamada haviam deposto. A autora afirmou ter sido contratada como costureira, mas não recebia o piso da categoria e era também incumbida de fazer os serviços domésticos da casa da ré. Esta disse que contratou aquela como empregada doméstica, que ela nunca foi costureira e nem sabia costurar.
Terminado o depoimento da reclamada, a juíza (que àquela altura devia ter 67 ou 68 anos) disse simplesmente: "Não aconteceu isso. A senhora contratou ela como costureira, não gostou da costura dela e ofereceu o emprego de doméstica."
Era uma terceira tese, diferente das duas apresentadas. E era a história verdadeira: a reclamada a confirmou, enquanto pedia que a juíza lhe respondesse o que deveria ter feito então. A reclamante não a negou.
O Direito do Trabalho não admite o rebaixamento de função (a exceção do retorno ao cargo efetivo do funcionário que exerce função de confiança), e as diferenças salariais eram realmente devidas. Mas a questão que isso suscita (era melhor que a empregadora demitisse a má costureira e a deixasse desempregada, em lugar de transformá-la em empregada doméstica!) não é meu tópico aqui.
Estava hoje lembrando essa história e pensando: a experiência torna todas as coisas mais simples. Perto dos 70 anos, era fácil para aquela juíza saber o que realmente havia acontecido, embora ninguém lhe tivesse dito a verdade. Ela já havia visto isso dúzias de vezes! 
E assim é a vida: as coisas se repetem tantas vezes, conosco ou ao nosso redor, que basta estar atento para apreender os padrões, conhecer o passado e o futuro. Nada é novo. Tudo é muito mais simples do que parece. O pensamento de todos nós acaba sempre obedecendo a um padrão: basta-nos conhecer esse padrão.
Talvez isso enfade um pouco, faça as coisas perderem a graça. Mas é a experiência que nos mantém afastados dos problemas e nos ajuda a agir de modo a construir o futuro pretendido.
Mas incontáveis vezes nós sabemos, podemos ver, e rejeitamos o conhecimento para arriscar a sorte em hipóteses que não se sustentam. Tolo hábito de atirar-se contra as paredes. É abandoná-lo que nos enfada, ou o cansaço que faz com que passemos a seguir a experiência?

4 comentários:

  1. Gosto muito de como você escreve. :)

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  2. Lindo texto com final genial!

    "Tolo hábito de atirar-se contra as paredes. É abandoná-lo que nos enfada, ou o cansaço que faz com que passemos a seguir a experiência?"

    Cansados, ficamos enfadados por nos ver obrigados a abandonar o hábito de atirar-nos contra as paredes e passamos a seguir a experiência. Bravo!!

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  3. "Gosto muito de como você escreve" (2)

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