segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Não estamos no mundo para julgar o próximo: não somos capazes de conhecer suas mais íntimas motivações e necessidades, suas alegrias e suas dores, para formar um juízo definitivo sobre sua pessoa. Tal julgamento pertence a Deus, que tudo conhece. Mas vivemos neste mundo na companhia uns dos outros, precisamos confiar no próximo para fazer nossos próprios planos, necessitamos de terreno sólido para basear nossas expectativas, dependemos de ordem e estabilidade para conduzir nossas vidas. Diante disso, formular juízos, ainda que temporários e sujeitos ao engano, é imprescindível. Não podemos julgar definitivamente as pessoas, por lhes desconhecer o coração, mas suas ações têm um valor que se expressa para fora do agente, que se projeta no mundo, e por isso devem estar sujeitas ao juízo de quem delas tiver conhecimento.

A boa tolerância é aquela que se dirige ao homem, que lhe desculpa, que o compreende como um igual, sujeito às mesmas falhas e capaz de superar as contingências da vida. Mas a tolerância que é dirigida ao ato, abstraindo este das vicissitudes da vida do homem concreto, é um pernicioso vício. 

Tal tolerância transforma a má prática em ato aceitável, opção válida e, até mesmo, em norma a ser observada. Quem se recusa a formular um juízo, a condenar o mal, traz prejuízo a si e aos outros. Deixando de reprovar a má ação, nega ao próximo a necessária instrução sobre o que pode e o que não pode ser feito, sobre quais são os limites do agir --e essa instrução é muitas vezes essencial em nossas vidas, quando estamos diante de um dilema e nossos interesses ou necessidades ofuscam nossa visão. Mais que ao próximo imediato, nossa omissão de julgamento atinge outros que nele se espelharão, fazendo com que o mau comportamento se multiplique por toda a sociedade. E pior ainda: aquele que muito tolera também se habitua ao mal, e logo o estará praticando.

A fim de ilustrar, indago que atitude devemos ter diante, por exemplo, de uma prostituta? Cristo disse que as prostitutas e os publicanos nos precederão no Reino dos Céus, o que já nos impede de temerariamente formular um juízo definitivo sobre elas. Mas a prostituição deixa de ser um mal em si porque algumas prostitutas, em razão de suas particulares histórias de vida, serão salvas? Obviamente não! Se deixarmos de reprovar a prostituição, muito mais difícil será a salvação de qualquer uma das prostitutas! A reprovação social desestimula a prática, afastando desse mal algumas de suas possíveis vítimas. E qual é nosso dever: condescender com uma prática que expõe a mulher à violência, a doenças, ao aborto, e a coisifica (a transforma em objeto), ou reprovar tal prática e assim ajudá-la a também a reprovar?

E quem muito tolera não se expõe ao risco de lesar sua própria alma? Ao se acostumar a ver umas pessoas usando de outras, não passará também a aceitar como normal que alguém se aproveite de uma fraqueza, uma necessidade ou um vício alheio para obter uma vantagem? Uma atitute assim, longe de ser aceitável, torna a pessoa semelhante ao demônio: é ele quem nos circunda qual predador, investigando nossas fraquezas para nos subjugar. Não há maior vileza que explorar o mais fraco --essa é a maldade própria do diabo. Deus, ao contrário, busca o fraco para erguê-lo --e é n'Ele que devemos nos espelhar.

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