quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

No último capítulo do livro do Apocalipse, último capítulo da Bíblia, há um versículo com as seguintes palavras:

"O injusto, que continue com a sua injustiça; o impuro, que continue com suas impurezas; o justo, continue a praticar a justiça; o santo, continue a santificar-se!"

É intrigante que Deus não diga: "Meu querido injusto, pare de fazer maldades, para o seu próprio bem".

Milton, poeta inglês, tem um verso em Paraíso Perdido que diz, ao tratar da obstinação do diabo para fazer o mal:

"Crescendo as obras más, cresce o castigo."

Em Os Persas, Ésquilo diz o seguinte:

"Quando um dos mortais empenha-se em perder-se
as divindades prontificam-se em ajudá-lo
nessa tarefa."

Toda essa introdução foi para dizer o seguinte: Deus às vezes nos tira muitas coisas, reduz nossa possibilidade de ação mundo, frustra nossos planos, porque sabe que se alcançarmos certos bens, se atingirmos determinada posição, se obtivermos poder sobre os outros homens iremos nos corromper. E Ele não quer que nos corrompamos. Ele não quer que você vire bilionário e ostente uma frota de ferraris enquanto seus irmãos passam necessidade, tenha ao redor de si uma plêiade, ou melhor, um plantel de marias-gasolina até que alguma te leve ao adultério. Então não espere virar bilionário e ter uma frota de ferraris...

Mas a algumas pessoas Ele permite exatamente isso. Por quê? Algumas pessoas planejam o mal, executam-no, permanecem aderidos ao mal por toda a vida e nenhum de seus planos se frustra, nunca são vencidas na vida.

Penso que isso ocorre porque o castigo é um remédio que corrige quem comente a injustiça, mas algumas pessoas estão em tal condição que Deus, conhecedor do futuro, sabe que não há como remediá-las, que não há correção, que estão na mesma obstinação demoníaca em que só se lhes pode deixar que aumentem o número das más obras para que, no momento da perdição, no momento da realização da justiça divina, nenhuma dúvida paire na mente daqueles que assistirão o julgamento, todos concordem com a justeza da condenação e o próprio réu seja capaz de reconhecer-se merecedor dela.

As demais pessoas, no entanto, não são obstinadas no mal, e a elas Deus corrige diariamente. Às vezes elas acreditam poder prevalecer sobre os demais mortais, em razão da posição que alcançaram. Mas, como diz de novo Ésquilo:

"nenhum dos mortais deve ter pensamentos
superiores à fragilidade humana."

Quando pessoas boas, aquelas de quem Deus quer cuidar, começam a planejar o mal e agir injustamente, a frustração de seus planos é inevitável. Como diz o livro de Provérbios: "o Senhor castiga aquele a quem ama, e pune o filho a quem muito estima." Quando fazem algo de mau, Deus não tarda a lançar sobre elas mesmas as consequências. Elas receberão o castigo antes que possam gozar os frutos das más ações, para que sequer tenham o gosto do sucesso e não se viciem no mal. Ultrapassados os limites da justiça, Deus logo reendireitará as coisas.

E como diz Sófocles:

"um dia apenas
reduz a nada as tolas pretensões humanas"

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