domingo, 20 de abril de 2014

Forsan et haec olim meminisse juvabit. Na tradução de Odorico Mendes: "Talvez isto com gosto inda nos lembre". Enéias anima seus homens (Ânimo! esse temor bani tristonho"), dizendo que as aflições atuais, no futuro, poderão ser prazerosamente lembradas.
Lembrei-me desse verso há pouco, quando me divertia ao contar episódios ocorridos há uns trez anos. Só os colegas de trabalho entenderão do que se trata: hoje são apenas histórias engraçadas, porém à época a tensão era quase insuportável.
Mas não se trata apenas de alegrar-se ao contar as superações pessoais. As dificuldades por que passamos nos tornam pessoas melhores. Olhando para o passado, vemos que conseguimos superar muitas coisas, e reconhecemos que somos capazes de superar também os dissabores presentes. Com cada novo esforço, exercitamos a paciência. O sofrimento nos ensina como ajudar outras pessoas que sofrem. Os problemas nos mostram que nada nesta vida se obtém gratuitamente, que tudo demanda esforço e sacrifício, e que por isso devemos dar valor a tudo que conquistamos.

Copio ao final o trecho da Eneida em que o verso aparece. Enéias lembra aos companheiros que eles já conheceram inúmeros males ("Os males... nada estranhamos"), e que outros infortúnios foram piores que o atual ("mais agros foram"). Deus pôs termo àqueles, e também porá termo à presente prova. Ele menciona os episódios da Cila e dos ciclopes, como exemplos de agruras superadas, e faz os homens recordarem-se da meta, o Lácio, onde as fadigas se encerrarão ("o repouso os fados mostram") e onde ressurgirá Tróia. Diz-lhes que precisam manter-se fortes para alcançar a bonança.
Após o discurso, Virgílio diz que na alma Enéias trazia insegurança (N'alma enferma sufoca a dor profunda"). Aqui cito o comentário do próprio Odorico a esse fato: "Enéias, bem que pio, é natural que às vezes desconfiasse dos oráculos, e mais da sua fortuna; e se cresse que o fado o ajudava em todas as empresas, esta certeza diminuiria o preço de sua coragem pessoal: as mais das vezes porém era a confiança nos deuses que o acorçoava [incentivava]. O poeta conhecia a nossa natureza, não exagerava os sentimentos, folgava de deixar ver o homem no herói".
O comentário de Odorico Mendes e os dois versos sobre o que ia na alma de Enéias merecem uma reflexão mais extensa, especialmente agora, na Páscoa, quando todos acreditamos na Ressurreição, todos tivemos prova de que Cristo é Deus porque ressuscitou por virtude própria, e que Sua palavra é verdadeira porque Ele cumpriu o que predissera quanto a levantar-se dos mortos no terceiro dia. Mesmo sabendo tudo isso, incontáveis vezes também ficamos inseguros quanto ao nosso futuro e esquecemos que no futuro há a vida eterna. Se tivéssemos fé inabalável todo o tempo, qual seria o nosso mérito? É agir contra nossos interesses, instintos e vontades, no momento em que duvidamos, que torna a nossa boa ação mais meritória. É a coragem de continuar lutando mesmo quando não temos certeza de que ao final exista uma recompensa.

"[...]'Os males, sócios,
Nada estranhamos; oh! mais agros foram:
Deus porá termo a estes. Vós de Cila
De perto a raiva e escolhos ressonantes,
Vós Ciclópeos rochedos afrontastes:
Ânimo! esse temor bani tristonho;
Talvez isto com gosto inda nos lembre.
Por vários casos, transes mil, nos vamos
Ao Lácio, onde o repouso os fados mostram:
Ressurgir deve ali de Tróia o reino.
Tende-vos duros, da bonança à espera.'
Tal discursa, e afetando um ar seguro,
N'alma enferma sufoca a dor profunda."

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