quinta-feira, 29 de maio de 2014

Enéias narrando a morte de Príamo:

"De Príamo este o fado, assim finou-se
Tróia arder vendo e Pérgamo assolar-se:
Quem d'Ásia em povos cem reinou soberbo
É cadáver. Na praia o corpo informe
Jaz sem nome, a cabeça destroncada.
Pasmei de horror, confesso: o pai querido,
No eqüevo rei derramava alento
Pela crua estocada, eu me figuro;
Figuro ao desamparo o tenro Ascânio,
Creúsa em pranto, os lares saqueados.
Olho atrás e procuro os companheiros:
Todos lassos e em dor me abandonaram,
Despenhando-se em terra ou sobre as chamas."


Príamo, que reinou sobre inúmeros povos da Ásia, foi morto enquanto via sua cidade ser consumida pelo fogo. Enéias, vendo o velho rei, lembra-se do pai Anquises, do filho Ascânio, e da esposa Creúsa, que deixou desprotegidos em casa, à mercê dos gregos que saqueavam a cidade. Procura os companheiros, mas não os encontra.

Odorico Mendes comenta esses versos em uma nota: "[Os críticos] Acusam Enéias de não socorrer Príamo. Quando saiu do retiro, já os Gregos, senhores da cidade, a saqueavam; muito houve de pelejar antes de chegar ao palácio, e o achou cercado, entrando por um postigo não ocupado. Perdidos os sócios Corebo, Rifeu, Hipanis, Dimas, Panto, e ficando com o velho Ifito e com Pélias já ferido, não podendo só com estes opor-se à multidão e aos mais bravos chefes Gregos, subiu à torre principal para de lá observar. Da torre em vão lançavam dardos; ele faz desabar uma parte sobre os esquadrões que se sucediam, destruindo imensa porção. Da torre, ponto o mais alto, viu a fugida da família real para um grande claustro, Pirro correr atrás de Polites, matá-lo na presença do pai, o rei invectivar o matador, que imola o triste velho. Tudo isto é rápido; Enéias não podia valer a Príamo, porque não tinha por onde passar ao claustro, sozinho estava, os seus poucos soldados em desespero tendo-se precipitado em terra e nas chamas. Digam-me se era cordato ir sem gente disputar o corpo do rei (pois não chegava a tempo de o salvar) a Pirro, Diomedes, Ulisses, Agamêmnon, Menelau, Ájax e tantos outros? Fora um sacrifício louco, não valor cordato e refletido. Virgílio, que celebra o pio Enéias e não Orlando furioso, faz a catástrofe do rei excitar no herói o desejo de socorrer a família. Este sentimento é inspirado pela natureza e pela razão; e deixar de lado pessoas tão queridas, que estavam com vida, para disputar um cadáver, seria um bom lance de novela, não uma ação judiciosa: Enéias era filho, pai e marido; a sua ternura para com Anquises, um distintivo do seu caráter."

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