sexta-feira, 21 de novembro de 2014

"Os poderosos, cercados de pompa,
são como os deuses para a gente humilde."
Eurípides, Ifigênia em Áulis

Sempre que morre um grande canalha (seja um empresário bem sucedido, um político, um artista famoso ou simplesmente um rico que apareça com frequência nos jornais), pululam no facebook votos de que a misericórdia divina o tenha alcançado, de que tenha obtido o arrependimento e a salvação, com todas aquelas admoestações de que não devemos julgar os outros. Não importa quão bandido fosse o defunto, quanto mal tenha feito, isso sempre acontece.

Curioso é que todos os dias morrem inúmeros bandinhos anônimos, sem nenhuma importância, que cometeram crimes das mais variadas gradações, desde furtos sem gravidade até crimes mais repulsivos como o estupro e o homicídio. Todos os dias também morrem pecadores não criminosos, e ao que me lembre basta um só pecado mortal para que a alma se perca. Mas nunca vi ninguém postar no facebook um "que Deus tenha piedade dos adúlteros anônimos que morreram neste dia", ou um "que Deus tenha piedade dos batedores de carteira". Por eles não há orações públicas. Como não há orações públicas pelos pais e mães de família anônimos que honestamente ganham a vida --a um desses que nos ligue no horário do almoço para oferecer uma assinatura de revista, provavelmente o xingaremos.

Eu me pergunto se as manifestações de piedade aos maus poderosos são inspiradas pela imitação do Deus que disse "Pai, perdoa-os, eles não sabem o que fazem", ou se é pela admiração que a pompa, o porte, a aparência, a oratória e a riqueza causam. 

É certo que o juízo de todos nós está, em maior ou menor grau, submetido às impressões superficiais que os sentidos nos transmitem. Um perfume, um sorriso e a tonalidade da pintura dos cabelos podem fazer com que um homem responda de modo diverso a uma demanda (sem natureza sexual) apresentada por uma mulher. Medimos o sucesso pelo tamanho do carro e associamos sem demora o sucesso ou o insucesso ao caráter do agente. Confiamos com mais facilidade em alguém de terno bem cortado e com boa dicção do que em alguém de camiseta e vocabulário modesto.

Mas quando já temos todos os elementos suficientes para dizer "este é um bandido", por que continuamos a confiar, a esperar arrependimento e emenda, a agir de modo contrário ao nosso conhecimento e mais: a dar ao mau maior valor do que aquele que ele tem, dar ao poderoso mau maior valor do que damos ao pai de família anônimo? Pois se nossos lamentos públicos só surgem quando morrem os poderosos, então damos a eles maior valor do que aos anônimos que todos os dias padecem e perecem.

Eu me abstenho de fazer juízos conclusivos sobre o destino das almas dos maus que morrem, mas juízo de probabilidade todo mundo pode fazer: é muito provável que estejam com o capeta. Eu me abstenho de desejar o mal aos outros, mas pedir a misericórdia de Deus pelos maus é gastar o tempo meu e dEle. Se Ele quiser ter misericórdia, fique à vontade. Mas duvido muito e não vou perder meu tempo rezando por cada grande ladrão que a morte traga, uma vez que eu também nunca acordei de manhã pensando nas almas dos pobres ladrões que foram mortos durante a noite.

Acho muito provável que Stálin, por exemplo, esteja queimando no pior lugar do inferno. Não coloco a alma de Stálin nas minhas orações, o que não significa que eu comemore que Stálin vá queimar no inferno por toda eternidade --quem comemora cada alma que vai para o inferno é o diabo. Jesus lamenta as almas que vão para o inferno, e sabia que muitos daqueles por quem rezou estavam condenados, mas não desceu da cruz quando disseram "desce da cruz", não fez questão de lhes provar que era mesmo filho de Deus e fazê-los crer. O que me alegra é a justiça divina ser feita (e o perecimento dos maus faz parte da justiça divina). Às vezes a justiça divina é incompreensível, mas é bem pouco provável que alguém que tenha se acostumado ao mal, no último momento abomine tudo que fez na vida, arrependa-se e se transforme em outra pessoa. Quem se acostuma ao mal se perverte. Quem sempre aderiu ao mal, salvo um milagre, não consegue rejeitá-lo, se arrepender e mudar no último segundo. É a impenitência final. E quem perverte a própria alma não consegue ver Deus, está condenado à eternidade longe dEle.


Um comentário:

  1. Acrescentando: parece que umas pessoas valem mais que outras mesmo. Vejam essa matéria da Veja São Paulo: http://vejasp.abril.com.br/materia/loemy-modelo-cracolandia
    Agora pergunto: se ela não tivesse sido bonita, se ela não tivesse sido modelo, alguém perguntaria sobre a vida dela, alguém se importaria? Se ela fosse uma empregada doméstica, seria matéria na Vejinha? Creio que não: pois há milhares de pessoas na mesma condição, e ninguém se importa com elas, são consideradas lixo pelo resto da sociedade, e todos ignoram as violências que sofreram, as misérias que padeceram. Aliás, ninguém se importa nem com a vida, as dificuldades, os sofrimentos da própria empregada, que está dentro de casa, não usa drogas, não se prostitui e nunca roubou... Logo aparece alguém para ajudar essa moça, colocá-la em uma clínica. E não duvido nada que esse alguém trate mal sua faxineira, ou que o dono da clínica trate mal a recepcionista. Isso porque à faxineira e à recepcionista falta alguma coisa para inspirarem misericórdia: falta beleza, inteligência, oratória, riqueza, poder...
    Há poucos meses também foi notícia em todos os jornais um tal de "mendigo gato", de uma capital do sul do país. Um ex-modelo, viciado em drogas (mas ainda bonito), que foi morar nas ruas. Se não fosse bonito, não seria notícia, como não são notícia os outros milhares de moradores de rua, cujas histórias pessoais ignoramos. Como era bonito, ganhou tratamento, emprego e logo uma mulher bonita se apaixonou por ele.
    Outra notícia interessante:
    http://educacao.uol.com.br/noticias/2014/08/20/moradora-de-paraisopolis-faz-vaquinha-para-pagar-universidade-em-portugal.htm
    A campanha arrecadou cinco vezes o objetivo. Fui olhar o facebook dela: muitas fotos de festas e passeios. Pode não ter dinheiro, mas ao redor de uma mulher bonita sempre há vários homens que querem comê-la, pagam os passeios, os convites para festas, elogiam tudo que ela diz e tudo que ela faz. Para mulher bonita se empresta carro e apartamento para férias (já vi isso, o sujeito morava em Florianópolis, viajou e deixou carro e chave do apartamento para a amiga que ia de férias pra lá, e que o deixou na friendzone, é claro). Para mulher bonita se paga almoço, jantar, lanche e passeio... Se fosse feia, não tinha arrecadado nem dez reais. É bonita, arrecadou trinta e dois mil. Se fosse feia, mandariam ela trabalhar, fazer Fies, se inscrever no Prouni, fazer vestibular para USP, Unesp, Unicamp ou alguma federal. Em Portugal estão aceitando ingresso pelo enem, pois o país está quebrado e eles precisam de gente pagando mensalidade. A Universidade de Coimbra nem aparece nos rankings das melhores do mundo. Mas a mulher é bonita, vira notícia e todo mundo ajuda.

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