terça-feira, 4 de novembro de 2014

Republicando - outro post de 2010

Eu ouvia ontem dois almoxarifes conversarem. Um reclamava que o outro não fizera algumas anotações, ao que esse respondeu que tinha a letra feia e que tinham combinado que o primeiro escreveria. Mais que isso, o segundo almoxarife contou que trabalhou seis anos como pedreiro, com a marreta na mão todos os dias quebrando coisas, e depois disso não havia como escrever com letra bonita. Fazia muito sentido a explicação, e eu me surpreendi por nunca haver pensado nisso. No tempo em que trabalhava no Banco do Brasil, irritava-me ver sempre as mesmas pessoas me pedindo para preencher por elas os envelopes de depósito. Sempre acusei a preguiça, a burrice, a falta de vontade de aprender algo tão simples --mas nunca me ocorreu que as pessoas podiam, mesmo alfabetizadas, não ter mãos para escrever legivelmente (por terem-nas marcadas pela enxada e pela marreta) ou terem perdido a habilidade de fazê-lo (por não terem, ao longo da vida, o que escrever).

Depois eu perguntei ao segundo almoxarife sobre a vida dele: casou-se cedo, teve duas filhas, trabalhou duro, começou um curso técnico em edificações mas não conseguiu se concluí-lo, divorciou-se e agora, pagando pensão para as filhas, morando sozinho e trabalhando feito burro de carga, não tinha mesmo condições de estudar. Se quando eu tinha os meus dezoito anos esse sujeito aparecesse na agência bancária em que eu trabalhava e, envergonhado da sua letra feia, pedisse para eu preencher por ele o envelope de depósito, eu o teria julgado burro, preguiçoso, sei lá mais o quê. Com que direito eu teria feito tal juízo?

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