terça-feira, 4 de novembro de 2014

Republicando - post de 2010 encontrado por acaso

A realidade foi-me entregue com um insanável defeito de fabricação: a minha vontade não cria o mundo. Nem o mundo, nem uma palha --sejamos claros.

Muito me agradaria se, após um abra-cadabrada qualquer, as coisas se tornassem aquilo que delas quero. Mas porque só me é permitido manipular dados existentes, acabo contrariado --todos os dias, todos os instantes: a cada garfada de comida fria, a cada passo na calçada em que a chuva formou poças d'água, a cada leitura das notícias do dia.

Mais que isso: o telefone toca sem que eu o queira atender; uma obrigação surge quando quero descansar; o vento frio me fustiga quando o tempo me engana e não estou agasalhado --tudo me lembra que não são meus o tempo atmosférico, nem o tempo da vida que o dever me toma.

A cada vontade que não me é satisfeita, preciso mais uma vez aprender que as coisas não se conformam à minha vontade. A cada desejo que não se realiza, sou obrigado a lembrar que não tenho ao meu dispor o gênio da lâmpada do Aladim. O que me resta, sempre, é suportar a contrariedade sem me revoltar, sem tiranizar os outros, sem usar de meios maus para obter o que quero.

E a vida é exatamente assim: uma sucessão de vontades, desejos e expectativas que se frustram. Decepção após decepção, temos de manter a cabeça erguida e buscar sempre o que é bom. Temos de lembrar que as coisas não são nossas, que não podemos conformá-las ao nosso desejo --que temos de dominar nossas vontades para que sejam orientadas por uma vontade maior.

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