quarta-feira, 4 de março de 2015


Sexta-feira fui intimar um reclamante a retirar alvará. Percorri a rua inteira e não achei o nr. (aqui os números são aleatoriamente distribuídos, na verdade cada pessoa dá à própria casa o nr. que quiser, e uma rua que atravesse dois bairros pode ter o mesmo nr. em cada um deles). 

Em cada casa que tinha porta aberta eu perguntei se conheciam o R* Ataídes. Quando já estava quase desistindo perguntei a um casal de velhinhos que estava na porta de uma casa. O velho respondeu que não conhecia. A mulher pediu que eu repetisse o nome algumas vezes, enquanto o marido repetia que não havia nenhum R* Ataídes na rua. A mulher finalmente lembrou que havia uma família Ataíde na casa verde perto de uma esquina, mas ela não sabia se havia algum R* lá porque só conhecia os moradores por apelido. 

Fui à casa dos Ataídes --nenhum nr. era exibido na porta, como é comum aqui. Bati palmas, entrei no quintal, fui até os fundos, e saíram do cômodo da frente duas menininhas de uns cinco ou seis anos. Não havia nenhum adulto na casa, mas a menina sabia que tinha um tio chamado "R*" que estava preso. A mãe dela chegaria do trabalho às 17h e a madrinha às 18h. Eu não poderia voltar a essa hora na sexta, perguntei se no sábado estariam em casa e ela me contou que a madrinha almoçaria em casa entre as 12h e 13h e depois voltaria ao trabalho. 

Voltei lá no sábado 12h30, falei com a madrinha, que me contou que havia dois R* Ataídes na família, um preso e o outro morto. Eu procurava o que havia trabalhado na cerâmica, o defunto. Ela então me contou que ele deixou viúva e quatro filhos, que moram em outro lugar e passam a maior parte do tempo no sertão (a zona rural é aqui chamada de sertão, embora não seja sertão de fato, água não falta na região). Não tinha o endereço certo da viúva. Eu falei a ela que se a visse dissesse para ela levar a certidão de óbito do companheiro e as certidões de nascimento dos filhos no Ministério do Trabalho (aqui a Justiça do trabalho é chamada de Ministério do Trabalho). Esqueci de falar para levar também a certidão de dependentes habilitados junto à previdência social, mas acho que esquecer foi até bom, porque reduz o trabalho dela e agora o Juízo que expeça ofício ao INSS para requerer a informação. 

Na segunda-feira imediatada a viúva foi à Vara do Trabalho com a certidão de óbito e as certidões de nascimento. O falecido nasceu em 1984, foi morto à bala, deixou quatro filhos, todos crianças (no ano da morte, 2010, o mais velho tinha 9). Cauane, uma das filhas, é menina --o nome é estranho, se não visse a certidão de nascimento eu não saberia dizer.

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