sexta-feira, 22 de maio de 2015

DSC07339 (1)

2 comentários:

  1. 1/2
    Foto feita na estrada que leva à fazenda da Agro* em Fortaleza dos Nogueiras.
    Fui à Agro* intimar cinco testemunhas para serem ouvidas em duas cartas precatórias. Na entrada da estrada de terra, a 38km da fazenda, um sujeito me pediu carona.
    Era motorista, trabalhava na Agro*, tinha sofrido um acidente com a moto no povoado Vale Verde, na BR 230, em São Raimundo das Mangabeiras, sem nenhum machucado grave (só arranhão na mão e no joelho), foi até ali de carona e estava atrasado para o trabalho, disse que foi Deus quem me enviou. Ficou um tempo parado com a porta do carro aberta, e eu sem entender por que não entrava, até que ele perguntou se tinha que tirar a bota para não sujar o carro. O carro, afinal, serve para transportar a gente de um lugar para outro --não me importo que suje.
    No caminho contou que queria sair da empresa, mas ela não aceitava "fazer um acordo" para mandá-lo embora, que disseram que só dispensavam por justa causa, se ele quisesse sair tinha que pedir demissão. Ele me perguntou se era certo isso, se a empresa podia se recusar a dispensar ele sem justa causa. Queria também saber se a hora noturna tinha que ser paga com adicional de 100% (pequena revisão: hora noturna do trabalhador rural tem adicional de 25%; não tem hora reduzida; para quem trabalha na lavoura vai das 21h às 05h). Por fim, também queria saber se era certo receber menos do que está na carteira. Essa pergunta é perigosa, primeiro foi preciso interrogá-lo para saber o que ele pretendia dizer. O salário na carteira era de mil e novecentos e poucos reais, mas ele recebia líquido mil e oitocentos, e estava descontente por receber menos do que o anotado. Tive que explicar que ele também tem que pagar INSS, não só a empresa, e que a empresa pode descontar alimentação...
    Na fazenda tive que andar com um vigia para achar as testemunhas, em um carro da fazenda. Enquanto isso, o funcionário me explicava: as caçambas com a cana são puxadas por tratores para a balança, em seguida vão para a máquina em que a cana é moída etc. etc., até que "o álcool sai 100% puro ali".
    Eu, é claro, não vejo o lugar onde está o álcool, mesmo com óculos que fiz em dezembro passado. Não sei o que é a coisa branca ao longe que ele está me apontando. Na verdade, nem vejo coisa branca ao longe...
    Mas e essa vinhança que escoa por canais na beira da estrada? Ele responde que lá na frente a vinhança é misturada com água, bombeada para um lugar ainda mais à frente, uma construção que ele enxerga e eu não, e de lá é distribuída para a fazenda toda por gravidade. Então a vinhaça vira adubo? Sim, a vinhaça é um dos adubos.
    Esqueci de perguntar sobre a palha, mas eu sou paulista e já percebi que algumas pessoas aqui em Balsas esperam que eu entenda de cana porque sou paulista. Mais perguntas me fariam parecer tonto. O funcionário da fazenda ainda indaga se eu queria ver o lugar em que a vinhaça é misturada com a água, porque já estávamos perto, mas eu queria mesmo era cumprir meus mandados e pegar a estrada.
    Uma coisa me deixou curioso: por que uma mulher que trabalha na cozinha foi arrolada como testemunha, se o reclamante trabalhava na usina? O vigia logo sugere, e não erra, que o autor deve ter reclamado da comida. O vigia trabalha ali há vinte e um anos, já foi testemunha em um processo, e a juíza lhe perguntou justamente sobre a comida. Naquela ocasião o reclamante tinha dito que só eram servidos pés e pescoços de galinha. Mas não, nenhuma fazenda na região servia uma alimentação melhor, e que se podia comer à vontade, repetir quantas vezes se quisesse. Nunca foram servidos pés e pescoços de galinha, da galinha a fazenda só comprava peito, coxa e sobrecoxa.
    Quando cheguei em casa consultei o processo no PJe e vi que realmente há pedido de dano moral com a alegação de que as refeições eram de má qualidade, que na maioria dos dias o autor ia para o dormitório comer bolachas porque não conseguia comer a comida, ou então comia em uma cantina próxima.

    ResponderExcluir
  2. 2/2
    Algumas pessoas a quem mostrei a história de imediato criticaram a fazenda pela alimentação. Então é melhor ressaltar: há acima a alegação do reclamante, interessado, e as declarações espontâneas de outro trabalhador, feitas em um bate-papo sobre coisas diversas. As afirmações de um e de outro se opõem. Eu de imediato acreditei no vigia: fiz audiência por três anos, consigo intuir quando uma pessoa mente e quando fala a verdade. A alegação do reclamante parece ser um daqueles textos-padrão de danos morais: em São Paulo, trabalhando em um callcenter, diria que os supervisores "tais como João, Antônio, Maria, Mariana" (só prenomes, todos os supervisores possíveis) assediavam moralmente --acredite em mim, muitas petições iniciais têm essa causa de pedir igualzinha, o advogado a coloca em todos os processos do escritório. Aqui má alimentação talvez seja uma dessas causas de pedir padrão...
    Além disso, conheço uma pessoa que trabalhou quatro anos no RH da fazenda, e depois perguntei a ela sobre a alimentação lá, para tirar as dúvidas.

    ResponderExcluir