sábado, 4 de julho de 2015

Fui ao Povoado B* cumprir um mandado, intimação de audiência a um reclamante sem advogado constituído. Na B* não funcionam celulares. As fazendas têm telefone, não sei por que meio. Mas um reclamante desempregado não tem... O único meio de falar com ele é dirigir 200km até o povoado, em estrada de terra, e ao chegar lá perguntar, à primeira pessoa que encontrar, onde mora fulano, que trabalhou na carvoaria em S*. Depois, dirigir os mesmos 200km para voltar.

Eu tinha ido à B* em janeiro, no meu segundo dia de trabalho aqui, acompanhado por um sujeito que conhecia a região e dirigindo o carro do tribunal. Uma vez na ida e outra na volta, no meio da areia da estrada, debaixo de chuva, perdi o controle do carro e deslizei pela pista.

Então hoje resolvi ir no meu carro, sobre o qual tenho melhor controle. Além disso, em janeiro a estrada estava em obras, pensei que as obras tinham avançado e muitos quilômetros tinham sido asfaltados. 

Fui sozinho, levando meu gps de trilha. O gps do carro não indica estrada nenhuma ali. O mapa que baixei em um site que compartilha, gratuitamente, mapas-base de gps indicava a estrada --e foi essencial para que eu achasse o começo dela.

Mas a estrada não tinha sido mapeada por completo e logo desapareceu do gps. Na foto, a linha azul é o percurso que percorri, e a linha tracejada é a estrada.

Minhas esperanças quanto ao asfalto foram vãs: em janeiro havia cinco quilômetros asfaltados. Em julho havia cinco quilômetros asfaltados. Vi muitas máquinas na beira da pista, mas não havia ninguém trabalhando.

Chegando ao povoado tive sorte: a primeira pessoa a quem perguntei sobre o reclamante era cunhado do sujeito. Encontrei-o em casa. Fato curioso: as galinhas não são criadas apenas no quintal, mas têm trânsito livre pela casa --havia várias andando pela cozinha. 

Vi duas crianças na casa. Indago sobre o futuro delas: sem boa educação; sem acesso a livros, filmes, músicas que possam ajudar a desenvolver o raciocínio; distantes de qualquer beleza que lhes possa cativar a alma (tudo ao redor são casas feias, chão de areia, mato seco e fazendas de soja e milho); não sei quando há missa por ali e, mesmo se houver com frequência, o padre deve ocupar seus sermões mais com política do que com formação moral. Tudo é tão limitador que parece impossível que desenvolvam suas potencialidades intelectuais e morais. Não sairá dali nenhum doutor e nenhum santo, porque o acaso do nascimento assim decidiu, e isso é terrível.

Não almocei. Esqueci de levar água e não procurei onde comprar. Queria voltar logo para a cidade.

Na estrada um caminhão bitrem não conseguiu subir uma ladeira, cem quilômetros antes de chegar a B., deu ré e ficou atravessado na pista. O motorista foi atrás de algum trator em alguma fazenda, e ninguém mais passava pela estrada.

O espaço entre o caminhão e o buraco em que a pista terminava era muito estreito. Para piorar, o desnível desse espaço livre era muito alto, e o terreno era de areia. Um carro tentou passar e ficou preso na areia, mas um caminhãozinho que estava no sentido oposto conseguiu guinchá-lo com cordas e ele passou. Um caminhão também passou, depois de ser empurrado por dezenas de pessoas, e depois de encostar no caminhão que estava bloqueando a estrada --foi muita sorte ninguém ter se machucado naquele momento.

Duas caminhonetes com tração 4x4 passaram. Eu tentei, mas meu carro é 4x2, fiquei arrependido de não ter ido com a caminhonete do tribunal. Desisti de tentar passar, pois era grande o risco de tombar no buraco na beira da estrada de um lado ou no caminhão parado do outro. Mas depois tentei de novo, e dessa vez o povo que estava lá parado me ajudou, empurraram meu carro para passar pela areia. Não tenho idéia de quantas horas eles me economizaram! Só sei que nos 100km que faltavam não fui ultrapassado por ninguém, embora não andasse muito rápido.

Acabei dando carona a um dos que lá estavam, um empregado rural que ia para a cidade de folga, numa van contratada pela fazenda.

Eu perguntei em que bairro ele morava e ele aproveitou para contar que se mudou da Açucena Velha para a Bacaba, porque depois que ele arrumou o emprego na fazenda sua mulher, com quem estava havia quatro anos, um dia simplesmente mandou que ele fosse embora de casa. Ele perguntou o motivo, ela respondeu que não havia motivo. Foi embora em um dia 26 e no dia 30 arrumou outra. Trabalha doze dias seguidos, folga quatro dias, recebe domingos dobrados e horas extras pelas tardes dos sábados. É motorista de trator, trabalha no plantio e na aplicação de agrotóxico, o trator tem gps preciso e se deixar de aplicar em algum ponto fica a marcação na tela. É empregado de uma empresa terceirizada que presta serviços para a fazenda (a colheita é feita por outra empresa terceirizada).

Soube mais ainda: o tio dele também foi expulso de casa pela mulher depois de arrumar emprego em fazenda nesse sistema de doze dias de trabalho por quatro de folga. "A gente faz qualquer coisa pra mulher não passar fome e ela faz isso", ele falou. Acrescentou que não se pode ser capacho de mulher, a ex-dele já está arrependida e telefonou tantas vezes que ele teve que trocar seu número. Mas um colega de trabalho, traído pela mulher com quem estava havia oito meses, prefere beber e arrumar briga com os outros a ter dignidade.

Eu pretendia chegar em casa às 15h, mas cheguei às 18h, sem almoçar, sem beber um copo d'água. Continuo esperando ansiosamente a nomeação em Campinas...

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