sexta-feira, 30 de junho de 2017

O ciclope Polifemo a Ulisses, na Odisséia:

"És tolo, estrangeiro, ou chegas aqui de muito longe, 
se me dizes para recear ou honrar os deuses. 
Nós, os Ciclopes, não queremos saber de Zeus detentor da égide, 
nem dos outros bem-aventurados, pois somos melhores que eles. 
Nem eu alguma vez, só para evitar a ira de Zeus, te pouparia 
a ti ou aos teus companheiros. Só se eu quisesse."


Ulisses recebeu a resposta acima ao invocar a hospitalidade do ciclope:

"[...] nós chegamos junto de ti como suplicantes, 
esperando que nos dês hospitalidade; ou que de outro modo 
sejas generoso conosco: pois tal é a obrigação dos anfitriões. 
Respeita, ó amigo, os deuses: somos teus suplicantes.
É Zeus que salvaguarda a honra de suplicantes e estrangeiros: 
Zeus Hospitaleiro, que segue no encalço de hóspedes venerandos."

Procurei, mas não consegui encontrar uma imagem de Polifemo devorando os companheiros de Ulisses. Queria usá-la para ilustrar o post.

Há dias esse episódio me vem à mente quando navego pelo facebook e pelos sites noticiosos em geral. Parece que por todos os lados há ciclopes devoradores de gente que não se submetem a Zeus e desconhecem o dever da hospitalidade.


O debate público é povoado de mentiras, distorções e manipulações, que muitas vezes servem à ocultação de intenções escusas. Segue-se à risca o conselho de Ra’s Al Ghul: teatralidade e ilusão são armas poderosas. Por todo lado há gente, na busca de seus próprios interesses, usando de ilusionismo para atrair o favor do público. Diálogo sincero não existe. As opiniões mudam conforme são favoráveis ou desfavoráveis ao grupo com que se identifica o opinante.

Não faz muito tempo, os corruptos do PT eram heróis de alguns porque teriam redimido os pobres, transformado o Brasil em potência, desenvolvido o biodiesel, promovido o etanol, alcançado a autossuficiência em petróleo, trazido a Copa, as Olimpíadas e o respeito mundial, entre outras mistificações.

À época metade das pessoas se orgulhava por não ter bandidos de estimação. Hoje boa parte delas desenvolve teses para amar seus bandidos. “O PT criou uma máquina de corrupção para se manter no poder e moldar o estado e a sociedade de acordo com o seu ideário. O PMDB é corrupto desde antes do PT nascer, mas sempre o foi apenas pelo dinheiro. Então o máximo de virtude que um ser humano pode alcançar é apoiar os corruptos do PMDB, PSDB etc porque estes, embora roubem, moldarão o estado de acordo com outras idéias, diferentes das do PT.” É esse o discurso lido em diversos lugares.

Sinceramente, não sei como vocês têm paciência para isso.


O homem contesta. Não basta lhe oferecer soluções prontas. O homem quer saber o porquê, não se conforma com tudo que lhe é dado e deseja influenciar na construção das decisões. Por isso os governantes precisam explicitar os motivos de suas escolhas, para dar a elas alguma legitimidade. O consenso é inalcançável, pois em qualquer grupo sempre brota a divergência, decorrente das diferentes formas de perceber os dados da realidade e das diversas histórias e formações individuais. Mas busca-se a concordância (ou não-oposição) da maioria em relação a um tópico. O mero arbítrio, a decisão sem motivos públicos que sejam aceitos, em pouco tempo se tornaria inaceitável e faria o sistema ruir.

Mas o homem também é enganado facilmente. Ama ser lisonjeado, rapidamente se convence de sua preeminência (moral e intelectual) sobre os demais, diverte-se rindo, xingando e menosprezando os que lhe são opostos, tem tendência a tornar-se um Polifemo devorador de carne humana.

Não é difícil, então, atrair as pessoas para uma tese por meio da apresentação distorcida de dados e apelando à ridicularização e demonização dos adversários, invocando a animalidade do público. 

A manipulação do debate subverte a sociedade e transforma o processo decisório em uma guerra entre inimigos. As decisões, que deveriam ser construídas por meio de informação e diálogo entre agentes racionais, passam a ter base na mentira e na propaganda. Vencem as teses que forem mais eficazes em agradar o público, não em informá-lo para dele extrair uma posição fundamentada.

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